O PENSAR COMO ANTÍDOTO À BARBÁRIE: HANNAH ARENDT, A BANALIDADE DO MAL E O PAPEL POLÍTICO DA ESCOLA

Prof. José Ricardo Mole • 15 de junho de 2026

Resumo

Este artigo discute a tese arendtiana segundo a qual a faculdade de pensar constitui condição necessária para a recusa do mal. Tomando como ponto de partida o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém (1961), o estudo analisa o conceito de "banalidade do mal" e examina suas implicações para a teoria educacional contemporânea. A pesquisa, de natureza bibliográfica e qualitativa, articula a distinção kantiana entre intelecto (Verstand) e razão (Vernunft), retomada por Hannah Arendt, com a crítica ao reducionismo pedagógico que converte a escola em mera "fábrica de competências". Argumenta-se que a escola, compreendida à luz dos conceitos de natalidade, pluralidade e amor mundi, ocupa lugar central na formação do sujeito político, capaz de exercer o pensamento como diálogo interno e como exercício de responsabilidade pelo mundo comum. Conclui-se que a recusa em educar para o pensar produz indivíduos tecnicamente competentes, mas moralmente vulneráveis à obediência cega, abrindo caminho para novas formas de barbárie institucionalizada.


Palavras-chave: Hannah Arendt. Banalidade do mal. Educação. Pensamento crítico. Filosofia da educação.


1 INTRODUÇÃO


Quando, em 1961, Hannah Arendt foi enviada pela revista The New Yorker a Jerusalém para acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann, esperava encontrar no banco dos réus a personificação do mal absoluto. O tenente-coronel da SS havia sido um dos principais responsáveis pela engenharia logística do Holocausto, responsável direto pela deportação de milhões de judeus aos campos de extermínio. A filósofa, entretanto, deparou-se com algo profundamente perturbador: um homem comum, medíocre, incapaz de articular um pensamento autônomo, que se justificava pela repetição de clichês burocráticos e pela alegação de que apenas cumpria ordens.


Dessa experiência nasceu uma das teses mais provocadoras da filosofia política do século XX: o mal, em sua forma mais devastadora, pode prescindir de motivações demoníacas ou ideológicas profundas. Ele pode florescer no vazio deixado pela ausência de pensamento. Tal constatação obriga a uma revisão radical das relações entre educação, política e moralidade. Se a competência técnica e o acúmulo de informações foram insuficientes para impedir a barbárie nazista (e Arendt lembra que muitos dos seus executores eram homens cultos, formados nas melhores universidades europeias), torna-se urgente perguntar: qual a função da escola em uma sociedade que pretende preservar-se da repetição do horror?


Este artigo propõe-se a examinar essa questão a partir da articulação entre o conceito de banalidade do mal, desenvolvido principalmente em “Eichmann em Jerusalém” (1963) e em “A Vida do Espírito” (1978), e a reflexão sobre educação presente no ensaio "A Crise na Educação", publicado em “Entre o Passado e o Futuro” (1961). Pretende-se demonstrar que, para Arendt, a escola não pode ser reduzida à transmissão de conhecimentos operacionais, devendo constituir-se como espaço de cultivo da faculdade do pensar, entendida como exercício político e ético fundamental.


2 O JULGAMENTO DE EICHMANN E O NASCIMENTO DE UM CONCEITO


O choque que Arendt experimentou em Jerusalém foi de natureza categorial. As teorias correntes sobre o totalitarismo, inclusive aquelas que ela mesma havia formulado em “Origens do Totalitarismo” (1951), apoiavam-se na noção de um mal radical, dotado de profundidade metafísica e enraizado em estruturas ideológicas complexas. Diante de Eichmann, porém, essa explicação revelava-se insuficiente.


O réu não era um sádico, nem um fanático visceral, nem um homem possuído por ódios irracionais. Era, antes, um funcionário zeloso, preocupado com sua carreira, orgulhoso de cumprir bem suas tarefas administrativas. Seu vocabulário esgotava-se em fórmulas oficiais e expressões prontas, denunciando uma incapacidade quase patológica de pensar fora dos limites do "oficialês" burocrático. Quando confrontado com a magnitude moral de seus atos, recorria à autodefesa típica do funcionário público diligente: havia obedecido às leis vigentes, cumprido as ordens superiores, executado as tarefas designadas.


A partir dessa observação, Arendt formulou o subtítulo de seu livro: "Um relato sobre a banalidade do mal". O termo "banal" não significa, neste contexto, trivial ou insignificante em suas consequências (Eichmann havia ajudado a matar milhões). Significa, antes, comum, ordinário, desprovido de profundidade. O mal de Eichmann não vinha de uma região abissal do espírito, mas de sua superfície vazia. Espalhava-se como um fungo, precisamente porque não havia nele o que a filósofa chamaria, em obra posterior, de "vento do pensamento" capaz de detê-lo.


3 A BANALIDADE DO MAL: O VAZIO DO PENSAR COMO CONDIÇÃO DA BARBÁRIE


A tese arendtiana da banalidade do mal pode ser resumida em uma proposição inquietante: a ausência de pensamento e não a presença de uma vontade maligna, constitui a condição mais favorável para a perpetração do mal em larga escala.


Examinemos os elementos que compõem o que poderíamos chamar de "homem sem pensamento":


  • Irreflexão. O sujeito incapaz de interromper o fluxo automático de suas ações para indagar sobre o sentido daquilo que faz. Eichmann nunca se perguntou se o trabalho que executava era moralmente defensável. Limitava-se a aperfeiçoar a eficiência logística dos transportes ferroviários.
  • Apego a clichês. O recurso sistemático a frases feitas, jargões institucionais, expressões burocráticas e até versículos bíblicos como substitutos do pensamento autêntico. O "oficialês" funciona como anteparo contra a realidade: ao chamar o extermínio de "solução final" ou de "tratamento especial", o agente afasta-se do horror concreto que suas decisões produzem.
  • Incapacidade de alteridade. A impossibilidade de imaginar o mundo a partir da perspectiva do outro. Eichmann não conseguia, em sentido pleno, ver os judeus como seres humanos cuja experiência subjetiva fosse comparável à sua. Eles eram, para ele, unidades de carga, problemas de planejamento, números em planilhas.
  • Superficialidade moral. A ausência daquela densidade interior que permitiria ao sujeito resistir a sistemas criminosos. Sem um diálogo interno consistente, o indivíduo se torna permeável a qualquer demanda externa, desde que revestida de autoridade institucional.


Vale insistir em um ponto frequentemente mal compreendido: a obediência, quando exercida como virtude inquestionável, equivale, em política, a apoio. Não há diferença substantiva entre o cidadão que aplaude o regime totalitário e o burocrata que executa suas ordens sem refletir. Ambos sustentam a engrenagem. A noção de que "apenas cumpria ordens" não constitui defesa válida, mas confissão de uma falência ética anterior, anterior, inclusive, ao ato criminoso em si: a falência de se ter constituído como sujeito capaz de julgar.


4 CONHECER E PENSAR: A DISTINÇÃO ENTRE VERSTAND E VERNUNFT


Para fundamentar filosoficamente sua posição, Arendt recorre à distinção kantiana entre intelecto (Verstand) e razão (Vernunft), desenvolvida na “Crítica da Razão Pura”. Embora os tradutores brasileiros muitas vezes vertam ambos os termos como "razão" ou "entendimento", a diferença é decisiva para a filosofia política arendtiana.


O intelecto (Verstand) é a faculdade voltada para o conhecimento. Busca a verdade factual, opera com categorias lógicas, produz resultados sólidos e cumulativos. É o domínio das ciências, das técnicas, das competências mensuráveis. Quando alguém aprende a calcular, a programar, a executar uma cirurgia ou a administrar uma empresa, está exercitando o intelecto. Trata-se de uma faculdade moralmente neutra: pode servir à medicina ou ao genocídio, à educação ou à propaganda totalitária.


A razão (Vernunft), por sua vez, é a faculdade voltada para a busca de sentido (Sinn). Não pergunta "o que é" ou "como funciona", mas "para quê" e "por quê em sentido último". Não produz resultados sólidos e acumulativos: ao contrário, Arendt a compara à teia de Penélope, sempre desfeita e refeita. Cada nova situação exige que o pensamento recomece, pois o sentido não é algo que se conquiste de uma vez por todas.


A distinção arendtiana entre conhecer (Verstand) e pensar (Vernunft) pode ser compreendida a partir de quatro dimensões complementares. Quanto ao objetivo, enquanto o conhecer dedica-se à busca da verdade factual e científica, o pensar orienta-se pela procura do sentido e do significado da existência. No que diz respeito ao resultado, o conhecer produz saberes sólidos e acumulativos, ao passo que o pensar nunca alcança estabilidade definitiva, assemelhando-se à teia de Penélope, perpetuamente desfeita e refeita. Em sua natureza, o conhecer concentra-se em competências e operacionalizações, ao passo que o pensar consiste em um diálogo interno e incessante, aquilo que Arendt descreve como o exercício do "dois-em-um". Por fim, no que tange à moralidade, há uma assimetria decisiva: o conhecer é moralmente neutro, podendo servir tanto ao bem quanto ao mal, ao passo que o pensar, por sua própria estrutura reflexiva, condiciona o sujeito contra a prática do mal. O pensar garante a decisão.


A história intelectual do século XX oferece exemplos sombrios dessa distinção. Martin Heidegger, um dos maiores filósofos da modernidade, dispunha de extraordinária capacidade cognitiva e erudição, ainda assim aderiu ao Partido Nazista em 1933. Sua biografia mostra que o domínio sofisticado do intelecto não imuniza contra o colapso moral. Isso se aplica a médicos, engenheiros e juristas que colaboraram com regimes criminosos. O conhecimento, isolado da faculdade de pensar, pode tornar-se instrumento refinado da barbárie.


O pensamento, para Arendt, é o "diálogo dois-em-um": uma conversa silenciosa que cada um mantém consigo mesmo. Sócrates é o exemplo paradigmático: aquele que, ao recusar cometer injustiça, justifica-se afirmando preferir estar em desacordo com a multidão a estar em desacordo consigo mesmo. A gravidade moral do pensar reside justamente nisso: ao fim do dia, cada sujeito precisa retornar à companhia de si próprio. Quem desejaria conviver, em diálogo perpétuo, com um assassino, um delator ou um mentiroso?


Lessing, citado por Arendt, formula a crítica decisiva ao pragmatismo cego: "e para que serve a serventia?". Se o critério único da ação humana é a utilidade, então a própria vida perde seu fundamento, pois a vida não tem utilidade externa a si mesma. A obsessão contemporânea pelo "útil" e pelo "operacional" repete, em escala social, o gesto que Arendt identifica na alma de Eichmann.


5 A ESCOLA ALÉM DAS COMPETÊNCIAS: CRÍTICA AO PRAGMATISMO PEDAGÓGICO


A discussão arendtiana sobre o pensar tem implicações diretas para a teoria da educação. Em particular, ela coloca em xeque os modelos pedagógicos que reduzem a escola a um dispositivo de produção de competências mensuráveis. O trabalho de Philippe Perrenoud e de outros teóricos da pedagogia das competências, ainda que dotado de mérito didático em determinados aspectos, corre o risco de hipertrofiar o intelecto às custas da razão, formando indivíduos eficientes na operação de saberes, mas incapazes de interrogá-los em seu sentido último.


A pergunta fundamental que educadores, pais e gestores escolares precisam enfrentar não é "o que ensinar?", nem mesmo "como ensinar?". É anterior a ambas: "em nome de que estamos educando?". Uma escola que responde a essa pergunta exclusivamente em termos de empregabilidade, produtividade ou desempenho em avaliações externas produz, no limite, técnicos competentes e cidadãos analfabetos do ponto de vista moral.


Não se trata, evidentemente, de recusar a transmissão de conhecimentos ou o desenvolvimento de habilidades práticas. Trata-se de reconhecer que essas dimensões são insuficientes. A escola precisa, ao mesmo tempo, ensinar a calcular e ensinar a perguntar para que se calcula; ensinar a redigir e ensinar a duvidar do que se escreve; ensinar a obedecer a regras e ensinar a julgá-las. Essa dupla exigência não é luxo das elites intelectuais, mas condição básica da formação cidadã em sociedades democráticas.


Quando a escola abdica de sua dimensão reflexiva, ela não se torna neutra: torna-se cúmplice. Forma sujeitos predispostos a aceitar qualquer ordem desde que venha revestida de autoridade institucional. Prepara o terreno, em outras palavras, para a reprodução das condições subjetivas que tornaram possível o fenômeno Eichmann.


6 PLURALIDADE E APARÊNCIA: A ESCOLA COMO ESPAÇO PÚBLICO PRIMORDIAL


Em “A Condição Humana” (1958) e em “A Vida do Espírito” (1978), Arendt desenvolve uma ontologia do mundo público que esclarece a função antropológica da escola. A tese central é resumida na fórmula: "ser e aparecer coincidem". Existir humanamente significa aparecer diante dos outros e ser percebido por eles. A realidade do mundo não é assegurada pela percepção isolada de um único sujeito, mas pela pluralidade de perspectivas que, convergindo sobre os mesmos objetos, garantem que esses objetos existam de fato.


A pluralidade é, nessa concepção, a "lei da terra". Cada ser humano é único e, simultaneamente, partilha com os demais a condição comum de aparecer no mundo. É esse paradoxo (unicidade e comunidade) que torna possível tanto a política quanto a ética. Sem pluralidade, há apenas o solipsismo do tirano, que confunde sua perspectiva singular com a realidade total.


A escola, nessa leitura, configura-se como o primeiro espaço público em miniatura que a criança experimenta. Em casa, ela é objeto privilegiado do amor parental, dotada de centralidade quase absoluta. Na escola, descobre-se como um entre muitos, uma perspectiva entre outras igualmente legítimas. A subjetividade infantil torna-se, para outros, um objeto a ser percebido, dialogado, confrontado. O isolamento do eu é rompido pelo choque com a alteridade.


O pensamento crítico, vale insistir, não floresce no vácuo. Ele exige o atrito com o diferente, a fricção entre perspectivas, o desconforto da divergência produtiva. Quando a escola se torna ambiente homogêneo, no qual todos pensam como todos e o dissenso é suprimido em nome da harmonia ou da eficiência, ela compromete sua função formativa mais profunda. A diversidade, longe de constituir empecilho ao processo pedagógico, é sua condição de possibilidade.


Há aqui uma consequência política importante. Sem a experiência precoce e sustentada da pluralidade, o sujeito torna-se vulnerável às lógicas internas, fechadas e autorreferentes que ignoram o sofrimento alheio. O "oficialês" de Eichmann é exatamente isso: um sistema linguístico que se autossustenta porque não admite interlocutores reais, capazes de questioná-lo a partir de fora. Educar para a pluralidade é, portanto, educar contra a possibilidade do totalitarismo.


7 EDUCAÇÃO COMO AMOR MUNDI: NATALIDADE, TRADIÇÃO E RESPONSABILIDADE


No ensaio "A Crise na Educação", Arendt afirma que a educação é o ponto no qual decidimos se amamos o mundo o bastante para assumir responsabilidade por ele. Essa formulação articula três conceitos fundamentais: natalidade, tradição e responsabilidade.


7.1 A natalidade como categoria pedagógica


A natalidade, para Arendt, é o fato ontológico fundamental: cada ser humano que nasce traz consigo a possibilidade do absolutamente novo. Diferentemente da mortalidade, que aponta para o fim, a natalidade aponta para o começo. Cada criança é uma promessa de renovação, um início que poderia, em princípio, recomeçar tudo.


Educar, nesse sentido, é o ato de introduzir os recém-chegados em um mundo que já existia antes deles. Os jovens herdam o passado não para se tornarem escravos dele, mas para que disponham de ferramentas suficientes para, eventualmente, renovar o futuro. A tradição cumpre a função paradoxal de habilitar a inovação: somente quem conhece o que existe pode efetivamente criar o que ainda não existe.


A natalidade impede que a civilização se torne estéril e repetitiva. Mas, para que cumpra essa função, precisa ser cuidada. Crianças entregues a si mesmas, sem mediação do mundo adulto, não inovam: regridem. A inovação autêntica exige a herança crítica do passado.


7.2 A escola como anteparo da civilização


A educação possui, segundo Arendt, uma face "conservadora" no sentido técnico, e não político, do termo. Ela deve proteger o mundo da novidade avassaladora das crianças, para que elas não o destruam antes de conhecê-lo. Simultaneamente, deve proteger as crianças do desgaste e da exaustão do mundo, para que possam crescer ao abrigo de pressões prematuras.


Essa dupla proteção configura a escola como anteparo da civilização. Nela, o jovem fica em condições de "fincar raízes" através da memória, do estudo e do diálogo. Deixa de ser um estranho na Terra para se tornar um cidadão responsável, capaz de habitar o mundo comum e de assumir parte de sua condução.


Quando a escola se omite dessa função, ou quando a converte em mero adestramento técnico, produz indivíduos desenraizados, incapazes de se sentirem responsáveis por aquilo que herdam. Sujeitos desenraizados, como demonstrou a história do século XX, são matéria-prima ideal para a mobilização totalitária.


7.3 Amor mundi como princípio pedagógico


A expressão amor mundi (amor pelo mundo) condensa a posição arendtiana. Educar é o gesto pelo qual o adulto declara amar o mundo o suficiente para apresentá-lo, com seus defeitos e méritos, à geração seguinte. É também o gesto pelo qual declara amar os recém-chegados o suficiente para não abandoná-los à própria sorte em um mundo que ainda não conhecem.


Esse princípio implica uma responsabilidade dupla do educador: responsabilidade pelo mundo, que precisa ser preservado e transmitido, e responsabilidade pelos jovens, que precisam ser introduzidos nele sem serem nele esmagados. Trata-se de um equilíbrio delicado, que nenhuma fórmula pedagógica resolve de antemão. Exige, a cada situação, o exercício do pensamento.


8 CONSIDERAÇÕES FINAIS: O DESPERTAR DO SONAMBULISMO MORAL


Homens que não pensam, sugere Arendt, são sonâmbulos. Caminham, trabalham, cumprem ordens, executam tarefas, mas não estão integralmente vivos no sentido mais pleno do termo, pois renunciaram à necessidade humana fundamental de dar sentido aos próprios atos. A incapacidade de pensar não é um defeito de inteligência (Eichmann não era estúpido em termos de QI), mas uma fuga da responsabilidade de dialogar consigo mesmo.


A escola que se propõe seriamente a contribuir para que essa fuga não se generalize precisa fazer mais do que treinar competências. Precisa criar as condições para o cultivo da dúvida, do dissenso produtivo, da pergunta sem resposta imediata. Precisa valorizar a diversidade não como concessão retórica ou ideologia política, mas como condição estrutural do pensamento crítico. Precisa, sobretudo, transformar o oficialês burocrático em discurso vivo, capaz de nomear o real sem dele se afastar.


O educador, nessa perspectiva, é aquele que instiga o aluno a perceber que pensar não é um luxo reservado a elites intelectuais, mas a condição básica para que o ser humano permaneça, de fato, humano. É a barreira mais consistente, ainda que nunca infalível, contra a possibilidade de sermos cúmplices, ativos ou passivos, de novas catástrofes históricas.


Cabe, portanto, recolocar a pergunta inicial: em nome de que estamos educando? Se a resposta se reduz à empregabilidade, à competitividade ou à utilidade imediata, então estamos produzindo as condições subjetivas para a repetição daquilo que Arendt identificou no banco dos réus de Jerusalém. Se, ao contrário, somos capazes de educar pelo amor mundi, oferecendo aos jovens não apenas técnicas, mas também a herança crítica do pensamento, a experiência da pluralidade e o exercício da responsabilidade, então a escola cumpre sua vocação mais profunda: ser o espaço no qual a humanidade decide preservar-se como tal.


Que nossas escolas sejam, portanto, menos fábricas de competências e mais lugares de diálogo. Espaços nos quais a busca pelo significado da vida prevaleça sobre o mero acúmulo de informações operacionais. Comunidades nas quais o pensar, esse diálogo silencioso de cada um consigo mesmo, seja cultivado como a primeira e mais fundamental das aprendizagens. Apenas assim a humanidade poderá seguir, de fato, humana.


REFERÊNCIAS


ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução Roberto Raposo. 13. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2020.


ARENDT, Hannah. A vida do espírito: o pensar, o querer, o julgar. Tradução Antônio Abranches, Cesar Augusto R. de Almeida e Helena Martins. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.


ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Tradução José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.


ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. Tradução Mauro W. Barbosa. 8. ed. São Paulo: Perspectiva, 2016.


ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. Tradução Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.


ARENDT, Hannah. Responsabilidade e julgamento. Tradução Rosaura Eichenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.


Por Prof. José Ricardo Mole 17 de julho de 2026
Introdução Quando Aristóteles escreveu a "Ética a Nicômaco" e a "Política", no século IV a.C., estabeleceu uma tese que atravessou os séculos: a política não é uma atividade separada da moral, mas a sua continuação natural. Para o filósofo, o ser humano é um animal político ( zoon politikon ) e a cidade existe não apenas para garantir a sobrevivência, mas para tornar possível a vida boa. O fim último da comunidade política é a eudaimonia , a felicidade entendida como florescimento coletivo, alcançada quando os cidadãos e seus governantes agem conforme a virtude. O caso do Banco Master, que eclodiu no Brasil no final de 2025 com a liquidação da instituição pelo Banco Central e a prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, oferece um retrato incômodo do quanto a política brasileira se distanciou desse ideal. As investigações da Polícia Federal, ainda em curso, revelaram uma rede de relações que atravessa todo o espectro político. Foram citados, direta ou indiretamente, parlamentares do centrão, da direita, lideranças ligadas ao governo e ao Partido dos Trabalhadores, governadores, prefeitos e até ministros do Supremo Tribunal Federal, como Dias Toffoli, que deixou a relatoria do caso após a revelação de vínculos empresariais de familiares com um fundo ligado ao banco, e Alexandre de Moraes, cuja esposa mantinha contrato milionário com a instituição. É preciso registrar, desde já, que se trata de suspeitas sob investigação e que a todos assiste a presunção de inocência, mas, como dizia o dramaturgo romano Plauto, na sua obra Curculio, ainda no século II a.C., “ flamma fumo est proxima ”, isto é, “a chama está sempre próxima da fumaça”. Ainda assim, o quadro geral permite uma reflexão filosófica legítima: o que Aristóteles diria sobre uma república em que o dinheiro parece circular com mais liberdade entre os poderes do que a virtude? O diagnóstico aristotélico: quando o poder serve ao interesse privado Na Política, Aristóteles classifica os regimes segundo um critério simples e poderoso: um governo é reto quando governa em vista do bem comum e é desviado (ou corrompido) quando governa em vista do interesse particular de quem detém o poder. A monarquia degenera em tirania, a aristocracia em oligarquia e a politeia, o governo constitucional dos muitos, degenera em demagogia. O nome do regime importa menos do que a sua finalidade: o que define a corrupção política, para Aristóteles, não é a forma institucional, mas o desvio do fim. Sob essa lente, o caso Banco Master é revelador precisamente porque não pertence a nenhum campo ideológico. A disputa de narrativas que se instalou, com a esquerda tentando atribuir o escândalo à direita e à gestão anterior do Banco Central, e a direita usando o envolvimento de ministros do Supremo para desacreditar o tribunal, é ela mesma um sintoma do problema. Ambos os lados tratam a corrupção como arma retórica contra o adversário e não como doença comum do corpo político. Aristóteles chamaria isso de facção ( stasis ): a situação em que os grupos deixam de deliberar sobre o bem da cidade e passam a lutar apenas pela vitória do próprio partido. Numa cidade tomada pela facção, a verdade se torna instrumento e a justiça, moeda de troca. Há ainda um agravante que o filósofo consideraria especialmente grave: o envolvimento, ao menos por proximidade e relações de interesse, de membros do Poder Judiciário. Na Ética a Nicômaco, Aristóteles descreve o juiz como "a justiça viva", aquele a quem as partes recorrem justamente porque o intermediário deve ser o meio-termo, equidistante dos interesses em conflito. Quando o julgador frequenta o círculo social do julgado, quando existem contratos e negócios ligando famílias de magistrados a investigados, compromete-se não necessariamente a honestidade individual de cada um, mas algo igualmente vital: a confiança pública na imparcialidade. Sem essa confiança, ensina Aristóteles, a amizade cívica ( philia politike ), o vínculo de reciprocidade que mantém a cidade unida, se dissolve. A raiz do problema: pleonexia e a crise da virtude Aristóteles daria um nome preciso ao motor do escândalo: pleonexia , o desejo de ter sempre mais do que é devido. Para ele, esse é o vício oposto à justiça, pois o injusto é exatamente aquele que toma para si mais bens e menos encargos do que lhe cabem na partilha comum. Um sistema financeiro que capta recursos de fundos de pensão de servidores municipais, como ocorreu com prefeituras que aplicaram dezenas de milhões no Master, e um sistema político que oferece proteção e acesso em troca de vantagens, formam juntos um circuito de pleonexia institucionalizada: o dinheiro público, que deveria servir ao bem comum, é convertido em patrimônio de poucos. O filósofo também nos lembraria de que a crematística, a arte de acumular riqueza pela riqueza, é para ele uma atividade contrária à natureza quando desligada de qualquer finalidade ética. A riqueza é instrumento da vida boa, nunca o seu fim. Uma sociedade em que banqueiros, políticos e juízes se encontram em jantares e fóruns patrocinados, unidos não por um projeto de cidade, mas por interesses patrimoniais cruzados, inverteu a hierarquia aristotélica dos fins: colocou os meios (o dinheiro, o poder) no lugar do fim (a eudaimonia coletiva). A proposta: reconstruir a política a partir da ética Se a política é a extensão da ética, a solução para a crise não pode ser apenas técnica ou punitiva; precisa ser, antes de tudo, uma reconstrução moral das instituições. A partir de Aristóteles, é possível propor quatro caminhos complementares. O primeiro é restaurar o primado do bem comum como critério de julgamento público . Aristóteles exigiria que cada ato de governo, cada decisão judicial e cada voto parlamentar fossem avaliados por uma única pergunta: isto serve à cidade ou serve a quem decide? Na prática brasileira, isso significa levar as investigações do caso Master até o fim, sem blindagens corporativas de nenhum poder e sem seletividade partidária. Uma eventual comissão parlamentar de inquérito, hoje travada por cálculos eleitorais, só teria valor aristotélico se investigasse todos os envolvidos, de todos os campos, pois a justiça que poupa os aliados não é justiça, é facção. O segundo caminho é a exigência de virtude nos governantes e não apenas de legalidade. Para Aristóteles, a lei é indispensável, mas insuficiente: o bom regime depende do caráter ( ethos ) de quem o conduz, formado pelo hábito e pela educação. Daí a importância de mecanismos que tornem a virtude condição de acesso ao poder: regras rígidas de conflito de interesses, quarentenas efetivas entre função pública e negócios privados, impedimentos automáticos de magistrados com vínculos pessoais ou familiares com as partes e transparência integral das agendas de autoridades. Não se trata de esperar santos, mas de desenhar instituições que dificultem o vício e favoreçam o hábito da honestidade, pois, como diz a Ética a Nicômaco, nos tornamos justos praticando atos justos. O terceiro caminho é o fortalecimento da classe média como base do regime. Aristóteles sustentava que a cidade mais estável é aquela governada pelos cidadãos medianos, nem tão ricos que desprezem a lei, nem tão pobres que possam ser comprados. Um sistema político capturado por grandes fortunas, em que o financiamento da vida pública depende da proximidade com o poder econômico, tende inevitavelmente à oligarquia. Reduzir o peso do dinheiro na política, proteger os fundos públicos de aplicações temerárias e ampliar a participação cidadã na fiscalização são medidas que aproximam o Brasil da politeia, o regime misto e equilibrado que o filósofo considerava o mais viável para os homens reais. O quarto caminho, talvez o mais profundo, é a educação para a cidadania. Aristóteles encerra a "Ética a Nicômaco" anunciando a Política justamente porque a formação do bom cidadão é tarefa da comunidade, não apenas da família. Enquanto a sociedade brasileira tratar a corrupção como esperteza tolerável quando praticada pelo próprio lado e como crime imperdoável apenas quando praticada pelo adversário, nenhuma reforma institucional será suficiente. A cura da facção começa quando os cidadãos voltam a se reconhecer como partícipes de um destino comum. Educar para a ética e para o interesse público: da polarização à concórdia Os quatro caminhos apontados no capítulo anterior convergem, no fundo, para um único fundamento, que merece reflexão própria: nenhuma reforma institucional sobrevive num povo que não foi educado para desejá-la. Aristóteles é categórico nesse ponto. No livro final da Ética a Nicômaco, ele reconhece que os argumentos, por si sós, não bastam para tornar os homens bons; é preciso que o caráter seja cultivado desde cedo pelo hábito e que a cidade assuma essa formação como sua tarefa mais importante. Por isso, na Política, ele afirma que o legislador deve se ocupar, acima de tudo, da educação dos jovens, pois cada regime se conserva ou se corrompe conforme o caráter dos cidadãos que forma. Uma democracia produz democratas ou demagogos; a diferença está na educação. Aplicada ao Brasil do caso Banco Master, essa lição ilumina algo que os capítulos anteriores já sugeriam: a corrupção revelada pelas investigações não nasceu nos gabinetes, nas cortes ou nos bancos; nasceu antes, numa cultura política que educa para a facção e não para a cidade. A polarização brasileira funciona hoje como uma verdadeira pedagogia às avessas. Ela ensina o cidadão a julgar os atos pela camisa de quem os pratica e não pela sua conformidade com a justiça; ensina a celebrar a investigação quando atinge o adversário e a denunciá-la como perseguição quando atinge o aliado; ensina, enfim, que a verdade é negociável e que a lealdade ao grupo vale mais do que a lealdade ao bem comum. Foi exatamente esse hábito coletivo que se manifestou na disputa de narrativas em torno do escândalo, descrita no diagnóstico deste ensaio: cada campo tentando transformar a pleonexia comum em crime exclusivo do outro. Aristóteles tem um nome para o antídoto: homonoia, a concórdia. Ele adverte, com precisão que parece escrita para o nosso tempo, que a concórdia não é a mera coincidência de opiniões e muito menos a uniformidade de pensamento. Concórdia é o acordo dos cidadãos sobre as coisas que importam à vida comum: sobre o que é justo, sobre quais regras valem para todos e sobre o fim que a cidade persegue. Homens virtuosos, diz ele, estão em concórdia mesmo quando divergem, porque querem o que é justo e vantajoso para todos; os homens maus são incapazes de concórdia, porque cada um quer para si mais do que a sua parte, e disso nascem a desconfiança e a facção. A unidade ética de que o Brasil precisa não é, portanto, o fim do pluralismo, que Aristóteles, aliás, defendia contra o excesso de unidade proposto por Platão. Direita e esquerda podem e devem continuar divergindo sobre economia, costumes e o tamanho do Estado; o que não podem é divergir sobre o inegociável: que o dinheiro público pertence ao público, que a lei obriga igualmente aliados e adversários e que juiz não frequenta a mesa de quem está julgando, nem com ele faz negócios. Como se educa para essa concórdia? O filósofo responderia em três planos. No plano escolar, formando desde a infância o hábito da vida em comum: a educação para a ética não é uma disciplina que se decora, mas uma prática que se exercita, e a escola é a primeira cidade em que a criança aprende, ou deixa de aprender, que as regras valem para todos, que o bem da turma precede o interesse do indivíduo e que divergir não é destruir. No plano público, pelo exemplo dos governantes: Aristóteles sabia que o ethos se transmite por imitação, e um povo que assiste, impune, ao trânsito de banqueiros entre gabinetes e tribunais aprende que a virtude é ingenuidade. Cada punição justa no caso Master, aplicada sem seletividade partidária, será uma aula pública de ética; cada blindagem corporativa será uma aula de cinismo e, no plano cívico cotidiano, pela reconstrução da amizade política: espaços de deliberação local, conselhos, audiências e imprensa livre em que os cidadãos voltem a se encontrar como vizinhos que dividem um destino e não como torcidas que dividem um campo de batalha numa rivalidade cega e, muitas vezes, assassina. Esse é o elo que costura todos os capítulos deste ensaio. O diagnóstico mostrou uma cidade tomada pela facção; a análise da pleonexia revelou o vício que a alimenta; as propostas institucionais desenharam o remédio jurídico e político. As instituições são, na imagem aristotélica, como leis escritas na pedra: necessárias, porém mortas se não estiverem também escritas no caráter dos cidadãos. A educação para a ética e para o interesse público é o que transforma a norma em hábito e o hábito em virtude. Sem ela, cada geração precisará redescobrir, a um custo enorme, que a política corrompida empobrece a todos; com ela, a concórdia deixa de ser um armistício frágil entre facções e se torna aquilo que Aristóteles chamava de amizade cívica em ato: o acordo profundo, renovado a cada geração, de que a cidade existe para o bem de todos e de que a felicidade de cada um só floresce na felicidade comum. Considerações finais O caso Banco Master não é, aristotelicamente falando, um escândalo de direita, nem de centro, nem de esquerda: é o retrato de uma comunidade política que perdeu de vista o seu fim. Quando o poder deixa de servir à eudaimonia coletiva e passa a servir à pleonexia de quem o exerce, o regime, seja qual for o seu nome constitucional, já degenerou. A lição de Aristóteles, contudo, não é pessimista. Se a política é a extensão da ética, então a sua corrupção nunca é destino, mas escolha, e escolhas podem ser refeitas. Recolocar o bem comum acima dos interesses da facção, exigir virtude de quem governa e julga, equilibrar o peso do poder econômico e educar cidadãos capazes de amizade cívica: eis o programa, antigo e sempre atual, para que o Brasil transforme a sua crise em oportunidade de reencontrar aquilo que Aristóteles chamava, simplesmente, de vida boa. Referências ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco . 4. ed. São Paulo: Edipro, 2018. ARISTÓTELES. Política . São Paulo: Edipro, 2019.
Por Prof. José Ricardo Mole 15 de julho de 2026
1. Introdução: a escola como janela para o mundo Na contemporaneidade, a instituição escolar deve ser compreendida como um território que transcende a mera instrução técnica ou o cumprimento burocrático de grades curriculares. Do ponto de vista da sociologia da educação, a escola atua como um espaço primordial de síntese subjetiva e social, onde o indivíduo inicia a construção de sua identidade em diálogo com a alteridade. Nesse cenário, a educação é o motor de uma abertura de horizontes que permite ao estudante decodificar a realidade. Conforme define João Valdir Alves de Souza, coordenador do grupo de pesquisa sobre profissão docente na UFMG: "a aposta da educação no mundo moderno é ampliar a lente na forma como vemos o mundo." 2. Ampliando a lente: o desenvolvimento do pensamento crítico A metáfora da "lente", proposta por Souza, sugere que a educação moderna não deve apenas transmitir informações, mas fornecer os instrumentos analíticos necessários para a desconstrução de preconceitos e vieses sociais. Essa ampliação da visão de mundo permite que o estudante deixe de ser um observador passivo para se tornar um sujeito crítico, capaz de realizar uma leitura profunda das estruturas que o cercam. Essa sofisticação do olhar contribui para o amadurecimento intelectual através de: Questionamento da realidade: a capacidade de transcender o senso comum, investigando as raízes socioculturais dos fenômenos e recusando interpretações superficiais. Reconhecimento da alteridade: o entendimento de que a diversidade de perspectivas não é apenas um dado cultural, mas uma condição essencial da vida em uma sociedade globalizada, legitimando o "outro" como parte integrante do "nós". Dessa forma, o conhecimento deixa de ser um fim em si mesmo para se tornar o meio pelo qual o aluno se conecta a uma visão de mundo complexa e plural. 3. A escola fora da bolha: socialização e relações culturais A "ampliação da lente" mencionada anteriormente não se aplica apenas ao conteúdo dos livros, mas projeta-se diretamente sobre as relações humanas dentro da sala de aula. É equivocado enxergar a escola como um ambiente asséptico ou isolado. Como aponta João Valdir Alves de Souza, a escola não é uma bolha isolada das relações sociais e culturais; ela é, em essência, um espaço de socialização secundária onde se negociam diferentes capitais culturais. A instituição está profundamente inserida no mundo, o que significa que ela funciona como um microcosmo da sociedade. A aprendizagem, portanto, ocorre na fricção entre o eu e o coletivo. É nesse campo de convivência que as normas sociais são internalizadas e as tensões da vida comunitária são experimentadas, preparando o indivíduo para a cidadania plena e para o trânsito em diferentes esferas da vida pública. 4. Mediação de conflitos e suporte institucional Pelo fato de a escola estar permeada pelas dinâmicas sociais, ela é inevitavelmente atravessada por conflitos. No entanto, o papel do suporte escolar não deve ser visto apenas sob a ótica do acolhimento emocional, mas como uma responsabilidade de mediação institucional. Souza enfatiza que, quando há conflito, o que se espera é o apoio da escola. Esse apoio representa a função da escola como ponte entre a esfera privada do indivíduo e as exigências da esfera pública. Ao atuar como mediadora em momentos de tensão, a escola oferece o arcabouço estrutural necessário para que o estudante aprenda a processar adversidades sem perder sua integridade. Ela funciona como um anteparo institucional que garante a segurança necessária para o desenvolvimento da autonomia. A escola não apenas ensina a viver; ela sustenta o indivíduo enquanto ele aprende a decifrar a complexidade do real.  5. Conclusão: o compromisso com a formação humana O papel da escola na sociedade contemporânea consolida-se em sua função de agente integrador, articulando socialização, crítica e identidade. O pensamento de João Valdir Alves de Souza reforça que o compromisso da educação não é a memorização de dados, mas a formação de sujeitos capazes de navegar e intervir na realidade de forma fundamentada e ética. A escola é, em última análise, uma rede de apoio social indispensável. Se ela falha em ser essa janela para o mundo, o custo para a sociedade é a fragmentação da coesão social e o empobrecimento do indivíduo. Valorizar a escola como este ponto de apoio é reconhecer que a educação é a ferramenta definitiva para ampliar a visão humana e sustentar o progresso coletivo. REFERÊNCIA CHARLOT, Bernard. Educação: uma aventura humana. São Paulo: Cortez, 2026. FOLHA DE S.PAULO. Professores tentam enfrentar resistências e preconceitos ao promover debates. São Paulo, 2024. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2024/10/professores-tentam-enfrentar-resistencias-e-preconceitos-ao-promover-debates.shtml . Acesso em: 13 jul. 2026.