LIDERANÇA ESCOLAR SISTÊMICA EM TEMPOS DE FRAGMENTAÇÃO

José Ricardo Mole • 25 de fevereiro de 2026

RESUMO


O artigo examina a liderança escolar a partir da teoria da complexidade e do pensamento sistêmico, situando-a no contexto da fragmentação social característica da contemporaneidade. Parte-se do diagnóstico sociológico de Zygmunt Bauman e Gilles Lipovetsky acerca da liquefação dos vínculos e da centralidade do hiperconsumo, articulando-o com os fundamentos epistemológicos de Fritjof Capra, Edgar Morin, Humberto Maturana e Peter Senge. No campo da gestão educacional brasileira, mobilizam-se as contribuições de Heloísa Lück, Celso Vasconcellos e Luiz Carlos Bresser-Pereira Abrucio no debate sobre governança escolar e qualidade da educação. Sustenta-se que a liderança escolar sistêmica constitui uma função mediadora capaz de integrar dimensões administrativas e pedagógicas, operando como instância de recomposição do tecido comunitário e de produção de sentido coletivo em ambientes institucionais marcados por alta complexidade.


1 Introdução


A escola contemporânea encontra-se imersa em um ambiente sociocultural caracterizado por volatilidade normativa, pluralização de valores e enfraquecimento das referências institucionais tradicionais. Nesse cenário, a liderança escolar não pode restringir-se à administração de rotinas ou ao cumprimento de protocolos burocráticos. Exige-se uma competência ampliada de leitura contextual, integração sistêmica e mediação de conflitos simbólicos.


A noção de modernidade líquida, formulada por Zygmunt Bauman, descreve a dissolução de estruturas estáveis que, historicamente, sustentavam identidades, trajetórias profissionais e pertencimentos coletivos. A escola, enquanto instituição social, sofre os efeitos dessa liquefação: famílias mais instáveis, expectativas instrumentais em relação à educação e relações pedagógicas tensionadas por lógicas mercantis. A liderança, nesse contexto, assume função estratégica na reconstrução de coesão interna e de sentido público.


2 Fragmentação social e implicações institucionais


Bauman identifica na modernidade líquida a substituição de compromissos duradouros por vínculos flexíveis e descartáveis. A educação passa a ser percebida como bem de consumo sujeito à obsolescência, subordinado à lógica da empregabilidade imediata. A consequência institucional é a redução da experiência formativa a resultados mensuráveis de curto prazo.


Gilles Lipovetsky, ao analisar a sociedade de hiperconsumo, desloca o foco para a subjetividade. O consumo deixa de ser apenas mecanismo econômico e torna-se estratégia de autorrealização emocional. O indivíduo é convocado a produzir permanentemente sua própria identidade. Na escola, tal dinâmica repercute na intensificação de demandas individualizadas, na dificuldade de construção de projetos coletivos e na estetização da experiência educativa.


Se em Bauman a ênfase recai sobre a fragilização estrutural dos vínculos, em Lipovetsky destaca-se a interiorização do imperativo de satisfação. Para a liderança escolar, a distinção é relevante: a fragmentação institucional decorre tanto de pressões sistêmicas externas quanto da internalização de expectativas individualistas por parte dos atores escolares.


Senge reforça a ideia de que no mundo contemporâneo criou-se o hábito de dividir os problemas em etapas ou em áreas, de modo que cada vez mais torna-se difícil aos gestores enxergar o todo. Com isso, tudo fica fragmentado, gerando incompletude e, ao mesmo tempo, sensação de de um trabalho que nunca tem fim.


3 Fundamentos epistemológicos da abordagem sistêmica


A superação da fragmentação não se dá por incremento de controle, mas por reconfiguração do modo de compreender a instituição. Fritjof Capra define o pensamento sistêmico como a percepção da realidade em termos de redes de relações e padrões de organização. O foco desloca-se dos elementos isolados para as interdependências dinâmicas.


Para Capra visão sistêmica, ou pensamento sistêmico, "significa olhar para um organismo vivo na totalidade de suas interações mútuas". A escola, sem dúvida, é um organismo vivo e dinâmico que traz uma perspectiva de esperança e de futuro muito grande, por isso, superar a fragmentação e enxergá-la como um todo, é fundamental para seu desenvolvimento num mundo em pedaços, isto é, fragmentado.


Edgar Morin contribui com o princípio da complexidade, segundo o qual os fenômenos sociais não podem ser reduzidos a causalidades lineares. A escola constitui sistema aberto, atravessado por dimensões cognitivas, afetivas, culturais e políticas. A liderança sistêmica opera na articulação dessas dimensões, evitando tanto a fragmentação tecnocrática quanto o voluntarismo desestruturado.


Pode-se representar a efetividade sistêmica da escola como função da densidade de conexões internas e da capacidade de integração significativa dessas conexões em ambiente complexo. A diversidade de iniciativas, quando não articulada por um eixo integrador, amplia a entropia organizacional. A função do líder consiste em promover coerência estrutural sem suprimir a pluralidade.


3.1 Organizações que aprendem


Peter Senge, por sua vez, fornece instrumental operacional ao propor as cinco disciplinas das organizações que aprendem.


No contexto escolar, o domínio pessoal implica formação continuada orientada por propósito; os modelos mentais demandam revisão crítica de crenças cristalizadas; a visão compartilhada requer construção participativa de metas institucionais; a aprendizagem em equipe pressupõe cultura de diálogo profissional; e o pensamento sistêmico integra as demais dimensões.


A liderança sistêmica, portanto, não se limita a coordenar pessoas, mas a estruturar processos reflexivos permanentes que transformam a escola em comunidade de aprendizagem institucional.

A concepção da escola como comunidade de aprendizagem corrobora para uma visão sistêmica da instituição de ensino, já que busca "potencializar a aprendizagem das/os estudantes da escola, assim como garantir melhorias na formação dos familiares e das pessoas que vivem no entorno da unidade escolar" (CONSTANTINO, 2012).


Enriquece a discussão, trazer o conceito de sincronismo organizacional, que é o alinhamento estratégico das pessoas, dos processos e da estratégia. Isso é sistêmico.


Portanto, para fazer a instituição crescer e não se desmanchar neste tempo fluido, é necessário redesenhar processos, implementando sua gestão de modo integrado (Cf. ALBUQUERQUE; ROCHA, 2007). Isto, porém, não é possível se as pessoas não forem formadas, isto é, preparadas para sair de uma visão setorizada, quase sempre fragmentada, para uma visão sistêmica e articulada.


3.2 Autopoiese e convivência


Humberto Maturana introduz o conceito de autopoiese para descrever sistemas vivos como redes que produzem e reproduzem continuamente seus próprios componentes. Aplicado à escola, o conceito indica que a cultura institucional não é mero reflexo externo, mas resultado das interações recorrentes entre seus membros.


A chamada biologia do amor, entendida como aceitação do outro como legítimo outro na convivência, fornece base ética para a cooperação.

Em ambientes escolares marcados por competição e desconfiança, a liderança sistêmica precisa criar condições estruturais para relações de reconhecimento, pois a aprendizagem emerge de contextos de confiança relacional.


4 Gestão integrada no contexto brasileiro


No debate brasileiro, Heloísa Lück defende a liderança compartilhada como superação do modelo centralizador. A gestão sistêmica integrada articula dimensões pedagógica, administrativa e relacional em torno de finalidades educacionais explícitas. A descentralização não significa ausência de direção, mas redistribuição responsável de competências.


Celso Vasconcellos enfatiza o Projeto Político-Pedagógico (PPP) como instrumento de intencionalidade coletiva. O PPP, quando reduzido à formalidade documental, perde sua função transformadora. A liderança sistêmica reconduz o documento à condição de referência normativa para decisões cotidianas, evitando a cisão entre planejamento e prática.


Luiz Carlos Bresser-Pereira Abrucio, ao tratar de gestão e qualidade da educação, destaca a necessidade de governança baseada em responsabilização e cooperação. A liderança escolar situa-se na interseção entre autonomia institucional e prestação de contas, mediando demandas externas e identidade interna.


5 Estratégias institucionais de recomposição


A liderança sistêmica pode operacionalizar a superação da fragmentação por meio de três eixos estratégicos.


✔️ Primeiro, integração escola comunidade. A abertura da instituição ao território, às famílias e a redes interinstitucionais amplia capital social e reforça sentido público da educação.


✔️ Segundo, institucionalização de espaços deliberativos. Fóruns participativos estruturados reduzem assimetrias comunicacionais e transformam conflitos em aprendizagem organizacional.


✔️Terceiro, centralidade do núcleo pedagógico. A articulação entre gestão administrativa e prática docente deve convergir para a qualidade da aprendizagem. Indicadores, planejamento e avaliação precisam estar subordinados a um projeto formativo explícito.


6 Conclusão


A liderança escolar sistêmica configura-se como resposta teórico-prática à fragmentação social contemporânea. Diante da liquefação dos vínculos e da hipertrofia do individualismo, a escola pode converter-se em espaço de reconstrução de pertencimento e de produção de sentido coletivo. Tal movimento exige superação da racionalidade linear e adoção de paradigma complexo, no qual interdependência, diálogo e intencionalidade pedagógica estruturam a ação institucional.


A liderança, nesse enquadramento, não é atributo carismático individual, mas função organizacional de articulação de redes, integração de saberes e sustentação ética da convivência. Sua relevância reside precisamente na capacidade de transformar a escola em sistema vivo, reflexivo e socialmente responsável.


Referências


ABRUCIO, L. G. Gestão escolar e qualidade da educação. São Paulo: Fundação Victor Civita, 2010.



ALBUQUERQUE, Alan; ROCHA, Paulo. Sincronismo organizacional: como alinhar a estratégica, os processos e as pessoas. São Paulo: Saraiva, 2007.


BAUMAN, Z. Sobre a educação e a juventude. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2013.


CAPRA, F. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, 1997.


CAPRA, F. A Visão Sistêmica da Vida: uma concepção unificada e suas implicações filosóficas, políticas e sociais. São Paulo: Cultrix, 2014.


LIPOVETSKY, G. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.


LÜCK, H. Liderança em gestão escolar. Petrópolis: Vozes, 2012.


MATURANA, H. Emoções e linguagem na educação e na política. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.


MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 2. ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2000.


SENGE, P. A quinta disciplina: arte e prática da organização que aprende. Rio de Janeiro: Best Seller, 2011.


VASCONCELLOS, C. S. Coordenação do trabalho pedagógico: do projeto político-pedagógico ao cotidiano da sala de aula. 16. ed. São Paulo: Cortez, 2019.



Sobre o autor


José Ricardo Mole  é sócio-diretor da JRM Consultoria, Educação e Serviços. Psicopedagogo, licenciado em Filosofia e Bacharel em Teologia, possui especialização em Gestão de Negócios pela Fundação Dom Cabral e em Orientação, Supervisão e Gestão Escolar pela Uninter.

Com mais de 15 anos de experiência na direção e na gestão de instituições de educação básica e de assistência social, desenvolveu sólida atuação em diagnóstico institucional, planejamento estratégico e estruturação de processos de melhoria organizacional.

Na JRM, conduz projetos voltados à educação básica, à assistência social e à assessoria para captação de recursos, articulando visão técnica, análise de indicadores e execução prática.

É professor convidado da PUC Minas na disciplina de Pensamento Estratégico em cursos de MBA. Atua também como palestrante e mentor de jovens, com interesse permanente no estudo da espiritualidade nas organizações e da inteligência artificial aplicada à educação e aos negócios.

Por José Ricardo Mole 9 de fevereiro de 2026
1. Introdução Em instituições educacionais e socioassistenciais, a omissão raramente é nomeada como problema de gestão. Ela costuma aparecer travestida de prudência, cautela, escuta ou respeito aos tempos das pessoas. No entanto, a experiência no exercício da direção revela um fenômeno recorrente e pouco discutido: quando decisões necessárias são sistematicamente adiadas, a omissão deixa de ser circunstancial e passa a estruturar a cultura institucional. Este artigo analisa a omissão decisória como prática organizacional, discutindo como ela se naturaliza, quais efeitos produz no cotidiano e por que representa um dos riscos mais silenciosos à sustentabilidade institucional. A tese central é que instituições não adoecem apenas por decisões equivocadas, mas por ambientes em que decidir se torna exceção e adiar se transforma em norma. 2. A omissão não começa como cultura Nenhuma organização nasce omissa. No cotidiano institucional, a omissão surge quase sempre como resposta a situações complexas, ambíguas ou emocionalmente custosas. Conflitos interpessoais, desempenhos inconsistentes, tensões com famílias, disputas internas de poder e decisões impopulares exigem posicionamento claro da liderança. O gestor, especialmente aquele comprometido com vínculos e cuidado, tende inicialmente a apostar no tempo como solução. Mais uma conversa, mais um ajuste, mais uma tentativa. Isoladamente, essa postura é compreensível e, muitas vezes, adequada. O problema emerge quando a exceção se repete e a repetição deixa de ser questionada. A literatura sobre gestão aponta que a ausência de enfrentamento sistemático de conflitos favorece sua incorporação à rotina institucional, tornando-os parte do funcionamento esperado da organização. 3. Do adiamento à normalização O ponto de inflexão ocorre quando a equipe passa a perceber que determinadas situações nunca são resolvidas, apenas contornadas. Nesse momento, a omissão deixa de ser decisão individual do gestor e passa a ser aprendizagem coletiva da organização. Os profissionais ajustam seu comportamento. Alguns passam a evitar conflitos, outros a assumir compensações silenciosas. O discurso institucional permanece o mesmo, mas as práticas se deslocam. Cria-se uma cultura de sobrevivência, não de responsabilidade compartilhada. No chão da instituição, esse processo é perceptível em frases recorrentes como “isso sempre foi assim”, “não adianta levar para a direção” ou “melhor deixar quieto”. Quando esse tipo de enunciado se torna comum, a omissão já se institucionalizou. 4. O silêncio como forma de governo Um equívoco frequente é associar liderança apenas ao que é dito. Na prática, o silêncio também governa. A ausência de posicionamento comunica. A não decisão orienta comportamentos. A omissão sinaliza limites implícitos do que pode ou não ser enfrentado. Do ponto de vista operacional, isso gera insegurança. A equipe não sabe quais critérios valem, quais comportamentos são tolerados e quais serão efetivamente enfrentados. A previsibilidade institucional se perde, e o gestor passa a ser demandado constantemente para mediações informais. A clareza decisória é elemento central para a construção de ambientes organizacionais estáveis e justos. Onde a decisão é ambígua ou inexistente, proliferam interpretações pessoais e disputas veladas. 5. O custo acumulado da omissão O custo da omissão raramente aparece de forma imediata. Ele se acumula. Manifesta-se em desgaste emocional da equipe, aumento de conflitos latentes, perda de confiança na liderança e dificuldade de implementação de mudanças. Quando o gestor decide agir, muitas vezes já enfrenta um cenário mais complexo do que o inicial. O problema deixou de ser pontual e passou a ser estrutural, envolvendo o clima institucional, as relações deterioradas e o descrédito nos processos de decisão. No cotidiano da direção, aprende-se que decisões difíceis tomadas no tempo adequado tendem a gerar desconforto localizado. Decisões adiadas produzem sofrimento difuso e prolongado. 6. A ilusão da harmonia Um dos efeitos mais perversos da cultura da omissão é a manutenção de uma aparência de harmonia. Conflitos não explodem, mas também não se resolvem. A instituição funciona, mas opera abaixo de seu potencial. Essa harmonia aparente costuma ser confundida com bom clima organizacional. No entanto, a experiência mostra que ambientes excessivamente silenciosos tendem a esconder medo, resignação ou desistência subjetiva. A experiência e também as pesquisas revelam que a ausência de conflito explícito não é indicador automático de saúde institucional. Conflito é parte constitutiva das organizações. O que define a maturidade institucional não é sua ausência, mas a forma como é enfrentado. 7. Romper a cultura da omissão Romper uma cultura de omissão exige mais do que uma decisão isolada. Exige reposicionar o papel da liderança e redefinir expectativas institucionais. O gestor precisa sinalizar, por meio de ações concretas, que decisões difíceis serão enfrentadas com critério, ética e responsabilidade. Isso implica explicitar critérios, sustentar posicionamentos e aceitar o desconforto inicial que decisões claras produzem. No médio prazo, a experiência demonstra que a clareza fortalece a confiança institucional, mesmo quando não agrada a todos. A liderança que decide não elimina conflitos, mas impede que eles se tornem subterrâneos e corrosivos. Neste sentido, os gestores podem fazer algumas perguntas que podem ajudar a compreender a maturidade da sua gestão e, quem sabe, romper a cultura da omissão: 1. Quais situações são sistematicamente adiadas em sua instituição. 2. Que mensagens o silêncio da gestão tem comunicado à equipe. 3. A harmonia aparente está protegendo a missão ou apenas evitando conflitos. 8. Considerações finais Quando a omissão vira cultura institucional, a organização perde capacidade de aprender, de se ajustar e de proteger sua missão. O silêncio decisório adoece o cotidiano e fragiliza a liderança, ainda que mantenha, por algum tempo, uma aparência de estabilidade. Instituições educacionais e socioassistenciais sustentáveis são aquelas que enfrentam conflitos, tomam decisões no tempo adequado e compreendem que liderar não é evitar tensões, mas administrá-las de forma responsável. Decidir é um ato institucional. Omissão repetida também é. Referências OLIVEIRA, Ivana Campos; VASQUEZ-MENEZES, Ivana. Revisão de literatura: o conceito de gestão escolar . Cadernos de Pesquisa, v. 48, n. 168. Disponível em https://observatoriodeeducacao.institutounibanco.org.br/cedoc/detalhe/ta-revisao-de-literatura-o-conceito-de-gestao-escolar,dea3964b-01d7-4522-8a40-5b2889414ab5 . PEREIRA, P. R.; GASGUE, K. C. G. (2019). Tomada de decisão do gestor escolar e uso da informação . Em Questão, v. 25, n. 3. Acesso em: https://seer.ufrgs.br/index.php/EmQuestao/article/view/83114/52818 . VIDAL, Eloisa Maia; NOGUEIRA, Jaana Flávia Fernandes; VIEIRA, Sofia Lerche. Gestão escolar no Brasil . Rio de Janeiro: FGV Editora, 2020.
Por José Ricardo Mole 1 de fevereiro de 2026
A omissão decisória como risco silencioso na gestão institucional 1. Introdução No cotidiano da gestão educacional e socioassistencial, decisões difíceis raramente se apresentam de forma clara e imediata. Pelo contrário, elas costumam surgir de modo difuso, diluído em pequenos incômodos, conflitos recorrentes e sinais fracos que o gestor aprende, muitas vezes tarde demais, a reconhecer. Entre essas decisões, poucas são tão delicadas quanto o afastamento de um bom profissional. Este artigo parte de uma experiência recorrente no chão da instituição: o momento em que o gestor percebe que a decisão necessária não foi apenas difícil, foi tardia. A literatura sobre gestão escolar e liderança aponta que a postergação decisória constitui um risco institucional relevante, ainda que pouco nomeado. Sustento aqui a tese de que, em muitos casos, o maior erro não é a decisão em si, mas o tempo excessivo gasto evitando tomá-la. 2. Quando os sinais já estavam dados Raramente o problema surge de forma abrupta. Na prática, os sinais aparecem aos poucos. Dificuldades de cooperação, resistência a combinados institucionais, desgaste relacional, ruídos na comunicação e aumento da demanda de mediação por parte da gestão. Nada disso, isoladamente, justifica uma decisão extrema. É justamente essa fragmentação que favorece a demora. O gestor experiente reconhece esses sinais, mas frequentemente os interpreta como transitórios. Aposta na conversa adicional, em mais uma tentativa de ajuste, em mudanças pontuais de função ou de contexto. A literatura sobre gestão escolar aponta que essa postura é comum, sobretudo em organizações que valorizam vínculos, pertencimento e compromisso institucional. O problema emerge quando a exceção se transforma em padrão e o padrão deixa de ser questionado. 3. A armadilha da boa intenção No chão da instituição, a demora decisória costuma ser justificada por argumentos legítimos. O histórico positivo do profissional, o receio de injustiça, o impacto emocional da decisão, a dificuldade de reposição e a preocupação com o clima da equipe. Tudo isso compõe uma narrativa de cuidado. No entanto, a experiência mostra que boas intenções não suspendem efeitos institucionais. Ao postergar uma decisão necessária, o gestor transfere o custo da indefinição para o coletivo. A equipe começa a compensar, conflitos se deslocam para outros espaços e o gestor passa a atuar de forma reativa, apagando incêndios que poderiam ter sido evitados. A ausência de enfrentamento de conflitos tende a naturalizar disfunções organizacionais, incorporando-as à cultura institucional. 4. O custo invisível da demora Quando a decisão finalmente é tomada, o gestor frequentemente percebe que o problema já não é mais apenas o profissional em questão. A equipe está cansada. O clima foi afetado. O gestor perdeu tempo estratégico em mediações repetitivas. O desgaste acumulado é maior do que teria sido se a decisão tivesse ocorrido no momento adequado. Do ponto de vista operacional, a demora gera retrabalho, aumento de tensão emocional e perda de foco institucional. Do ponto de vista simbólico, transmite a mensagem de que os critérios institucionais são flexíveis demais ou dependentes de circunstâncias pessoais. Decisões tardias comprometem a credibilidade da liderança e enfraquecem a percepção de justiça organizacional. 5. Decidir tarde também é decidir Um aprendizado duro do exercício da direção é reconhecer que não decidir é, em si, uma decisão. Uma decisão que preserva o desconforto imediato do gestor, mas amplia o risco institucional. No cotidiano da gestão, a omissão costuma ser mais confortável do que o enfrentamento, ao menos no curto prazo. A maturidade se manifesta quando o diretor compreende que sua função não é evitar conflitos, mas administrá-los com critério. Decisões difíceis não se tornam menos dolorosas com o tempo. Na maioria das vezes, tornam-se mais complexas e mais custosas. Liderar implica assumir a responsabilidade por escolhas que impactam pessoas e sistemas, mesmo quando não há solução perfeita. 6. O efeito sobre a equipe comprometida Um aspecto frequentemente negligenciado é o impacto da demora sobre os profissionais comprometidos. Quando percebem que situações problemáticas se prolongam sem posicionamento claro da gestão, esses profissionais tendem a se desengajar ou a assumir posturas defensivas. A decisão tardia, ainda que correta, chega a uma equipe já desgastada. Nesse sentido, o gestor não apenas resolve um problema, mas precisa reconstruir confiança institucional. Esse custo raramente aparece nos indicadores formais, mas é profundamente sentido no cotidiano. No chão da fábrica institucional, liderança se mede também pela capacidade de proteger quem sustenta a instituição todos os dias. 7. Considerações finais O dia em que o gestor percebe que demorou demais para decidir costuma ser um marco silencioso em sua trajetória. Ele revela que liderar não é apenas saber o que fazer, mas saber quando fazer. A omissão, ainda que bem-intencionada, pode produzir efeitos mais danosos do que uma decisão difícil tomada no tempo adequado. Instituições educacionais e socioassistenciais não adoecem apenas por decisões erradas. Adoecem, com frequência, por decisões adiadas. Reconhecer isso é parte do amadurecimento institucional e pessoal de quem dirige. Referências FREITAS, Maria Ester de. Cultura organizacional: evolução e crítica. São Paulo: Cengage, 2007. LIBÂNEO, José Carlos. Organização e gestão da escola: teoria e prática. São Paulo: Heccus, 2013. LÜCK, Heloísa. Liderança em gestão escolar. São Paulo: Vozes, 2014. PARO, Vitor Henrique. Administração escolar: introdução crítica. São Paulo: Cortez, 2018.