A IMPORTÂNCIA DO VOLUNTARIADO NO PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM E DA FORMAÇÃO CIDADÃ DOS ESTUDANTES

O que a pesquisa educacional já sabe sobre servir, aprender e se formar cidadão e por que a diferença entre uma boa ação e uma boa aula cabe em uma única variável.
1. Introdução
Toda escola brasileira tem, em algum ponto do calendário, uma ação solidária. A campanha do agasalho, a arrecadação de alimentos, a visita ao asilo, o mutirão de limpeza da praça. São gestos legítimos, bem-intencionados e quase sempre bem recebidos pelas famílias. A pergunta que raramente se faz é outra e é mais desconfortável: aquilo formou alguém?
A resposta não depende do tamanho da doação. Depende do desenho pedagógico. Aqui a literatura acadêmica é surpreendentemente convergente.
2. O que a evidência mostra
A síntese mais citada sobre o tema é a meta-análise de Celio, Durlak e Dymnicki (2011), que reuniu 62 estudos e 11.837 estudantes da educação básica ao ensino superior. Comparados a grupos de controle, os alunos que participaram de projetos de aprendizagem-serviço apresentaram ganhos estatisticamente significativos em cinco domínios: atitude em relação a si mesmos, atitude em relação à escola e à aprendizagem, engajamento cívico, habilidades sociais e desempenho acadêmico. Os efeitos médios variaram de 0,27 a 0,43, magnitudes modestas isoladamente, mas relevantes para uma intervenção que atua simultaneamente sobre dimensões cognitivas, socioemocionais e cívicas.
Resultados na mesma direção aparecem em Conway, Amel e Gerwien (2009), com 78 estudos, e em Yorio e Ye (2012), com 40 estudos, este último com efeitos consistentes sobre a compreensão de questões sociais, o autoconhecimento e o desenvolvimento cognitivo. Warren (2012), analisando 11 estudos, encontrou aumento de aprendizagem independentemente da forma como ela foi medida. Billig (2000), revisando especificamente a produção sobre a educação básica, já apontava ganhos em rendimento, frequência e vínculo com a escola.
Há também indícios de efeito sobre o bem-estar. Achados do estudo longitudinal australiano Growing Up in Australia, divulgados pelo Australian Institute of Family Studies, associam comportamentos pró-sociais e participação voluntária na pré-adolescência a menor probabilidade de sofrimento psíquico ao longo do desenvolvimento. Cuidar de alguém, ao que tudo indica, também cuida de quem cuida.
3. A variável que decide o resultado
O achado mais útil para a prática escolar, porém, não é o efeito médio. É o moderador.
Van Goethem e colaboradores (2014) analisaram 49 estudos com 24.477 adolescentes entre 12 e 20 anos, publicados na Child Development. O serviço comunitário produziu efeitos positivos em resultados acadêmicos, pessoais, sociais e cívicos. Porém, quando os pesquisadores separaram os programas que incluíam reflexão estruturada daqueles que não incluíam, o quadro mudou de forma dramática: o efeito médio foi de 0,41 nos programas com reflexão e de 0,05 naqueles sem reflexão.
Sem reflexão sistemática, a ação solidária produz um efeito estatisticamente indistinguível de zero. A doação continua chegando ao seu destino. O aprendizado, não.
Celio, Durlak e Dymnicki (2011) chegaram a conclusão convergente ao testar quais práticas se associavam a melhores resultados: vínculo com o currículo, voz do estudante no planejamento, envolvimento real da comunidade e reflexão. Não são detalhes de execução. São a diferença entre um evento e uma experiência formativa.
4. Por que funciona: as bases teóricas
A explicação não é nova. Dewey (1938) já sustentava que nem toda experiência é educativa: só o é aquela submetida aos princípios de continuidade e interação, ou seja, aquela que se conecta a experiências anteriores e é reelaborada intelectualmente. Experiência sem elaboração, para Dewey, pode inclusive ser deseducativa, pode consolidar estereótipos e preconceitos em vez de dissolvê-los.
Kolb (1984) sistematizou esse movimento no ciclo de aprendizagem experiencial: experiência concreta, observação reflexiva, conceituação abstrata e experimentação ativa. Uma ação solidária que se encerra na entrega da doação interrompe o ciclo no primeiro estágio. É por isso que ela não gera aprendizagem transferível.
Freire (1996) acrescenta a dimensão política e ética. Para ele, ensinar exige a curiosidade epistemológica, a passagem do saber ingênuo ao saber crítico, e o reconhecimento de que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. Quando um estudante entende por que aquela família precisa da cesta básica, ele deixa de ser doador e passa a ser sujeito que pensa a realidade. Freire (1970) também nos protege de um risco central: a falsa generosidade, aquela que alivia a consciência de quem doa sem tocar as estruturas que produzem a necessidade.
Youniss e Yates (1997), em estudo clássico sobre adolescentes engajados em serviço comunitário, mostraram que a participação sustentada e acompanhada de discussão coletiva contribui para a construção de identidade e de responsabilidade social, o jovem passa a se enxergar como alguém que age no mundo. Tapia (2006) sintetiza esse mecanismo como um círculo virtuoso: quanto mais conhecimento é depositado na ação solidária, mais relevante ela se torna; quanto mais relevante a ação, mais motivadora ela é e mais perguntas novas produz, realimentando o desejo de aprender.
5. O que dizem os autores brasileiros
A discussão não é importada. Ela tem tradução consolidada na produção nacional e é ela que dá contorno próprio ao tema no nosso contexto.
Costa e Vieira (2006) formularam o conceito de protagonismo juvenil, hoje incorporado ao vocabulário corrente das escolas brasileiras. A tese central é a de que o adolescente deve ser visto como parte da solução e não como problema a ser administrado. Os autores propõem que a relação entre educador e educando percorra três estágios sucessivos, dependência, colaboração e autonomia, de modo que a iniciativa das ações migre progressivamente do adulto para o jovem. Esse é um critério de avaliação muito prático: em que estágio está o programa de voluntariado da minha escola?
Arroyo (2000) ajuda a entender por que tantos projetos solidários se desgastam. Para ele, o ofício de mestre se constrói na relação com sujeitos concretos, e não no cumprimento de tarefas prescritas. Quando a ação solidária vira mais uma exigência administrativa, ela perde exatamente a dimensão relacional que a tornaria formativa.
La Taille (2006) oferece a distinção que sustenta a discussão ética do tema, ao separar a moral, que responde à pergunta sobre o dever, da ética, que responde à pergunta sobre a vida que vale a pena ser vivida. Projetos solidários que se limitam ao registro do dever tendem a produzir obediência; os que tocam a segunda pergunta produzem adesão. É uma diferença que aparece no engajamento dos alunos já nas primeiras semanas.
Araújo (2003) trabalha a estratégia de projetos como caminho para tratar temas transversais de forma articulada ao currículo e não paralela a ele. É precisamente a arquitetura de que a aprendizagem-serviço precisa: um problema real como eixo e conteúdos disciplinares mobilizados para enfrentá-lo.
Sposito (2008), examinando as interações entre educação escolar e educação não formal no Brasil, alerta para um ponto que interessa diretamente às escolas privadas: essas experiências não escolares só produzem efeito educativo consistente quando articuladas à escola e não quando funcionam como circuito paralelo destinado a compensar o que o currículo não faz. Gadotti (1992), ao formular a ideia de escola cidadã, havia proposto algo convergente: a cidadania não é conteúdo a ser transmitido, é prática a ser exercida dentro da própria instituição.
No campo específico da aprendizagem-serviço, a produção brasileira ainda é jovem, mas já existe. Macuch e Ortiz (2022) analisaram relatórios de estudantes envolvidos em projetos de vinculação social e identificaram três eixos de transformação percebida: o eu profissional, o eu pessoa e o reconhecimento do outro. A pesquisa reforça, com dados qualitativos brasileiros, aquilo que as meta-análises indicam quantitativamente, o efeito não é apenas cognitivo, é identitário. A sistematização do CENPEC Educação (2021), no âmbito da Rede Brasileira de Aprendizagem Solidária, é hoje a porta de entrada mais acessível para escolas que queiram começar.
6. O encontro com a BNCC
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) define competência como a mobilização de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho (BRASIL, 2018). A definição é operacional e exigente: sem uma demanda complexa e real, não há como verificar se a competência foi mobilizada.
Ao menos quatro das dez competências gerais encontram no voluntariado estruturado um contexto de aplicação quase perfeito:
● Competência 6, que trata da valorização da diversidade de saberes e vivências culturais e das escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao projeto de vida.
● Competência 7, que exige argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si, dos outros e do planeta.
● Competência 9, que trata de exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, com acolhimento e valorização da diversidade.
● Competência 10, que trata de agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários.
Note que as competências 9 e 10 são, entre as dez, as menos avaliáveis por instrumentos convencionais. Não se mede empatia em prova objetiva. Mede-se em situação. O voluntariado com intencionalidade pedagógica oferece exatamente a situação que falta e, com ela, evidências observáveis de desempenho.
No Ensino Médio, a conexão é ainda mais direta: o projeto de vida, previsto na BNCC como eixo estruturante, se beneficia de experiências que colocam o estudante diante de problemas reais e de adultos que trabalham com eles. Boa parte das descobertas vocacionais que os estudantes relatam nasce desse tipo de contato, não de testes de perfil.
7. O que o estudante efetivamente leva
Em projetos bem desenhados, o ganho aparece em quatro camadas simultâneas.
● Acadêmica: conteúdos curriculares aplicados a um problema autêntico, com maior retenção e transferência.
● Socioemocional: cooperação, comunicação, tolerância à frustração, responsabilidade sobre um compromisso assumido diante de terceiros.
● Cívica: compreensão de que problemas sociais têm causas estruturais e que a ação coletiva organizada produz efeito, o que reduz tanto o cinismo quanto o voluntarismo ingênuo.
● Identitária: a experiência de ser alguém de quem outra pessoa dependeu, e de ter correspondido. Youniss e Yates (1997) mostram que é justamente esse componente que sustenta o engajamento cívico na vida adulta.
8. Três cuidados éticos que não podem ser negociados
Primeiro, o outro não é material didático. A comunidade parceira não existe para que os nossos alunos desenvolvam empatia. A relação precisa ser de reciprocidade, com benefício verificável para quem recebe o serviço, princípio que Bringle e Hatcher (1996) colocam no centro da definição de aprendizagem-serviço e que Tapia (2015) chama de solidariedade horizontal.
Segundo, o registro fotográfico não é avaliação. Comunicar a ação é legítimo, inclusive para atrair novos parceiros, mas quando a foto ocupa o lugar da reflexão, o projeto perde justamente a variável que a pesquisa identificou como decisiva. Vale aqui a distinção de La Taille (2006): estamos formando para o dever aparente ou para uma concepção de vida boa?
Terceiro, ação pontual não sustenta transformação. Os padrões de qualidade formulados por Billig e Weah (2008) incluem duração e intensidade suficientes: experiências curtas podem inspirar, mas não constroem vínculo, expertise nem impacto verificável.
9. Uma conclusão simples
O voluntariado escolar não educa por ser bonito. Educa quando é planejado como currículo: com objetivo de aprendizagem declarado, protagonismo real do estudante, parceria de mão dupla, reflexão sistemática e avaliação dos dois lados da relação.
A boa notícia é que a escola brasileira já faz a parte mais difícil, que é mobilizar. Falta, na maioria dos casos, apenas transformar mobilização em pedagogia. E isso, ao contrário do que parece, custa menos tempo do que se imagina, mas exige intenção.
Referências
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AUSTRALIAN INSTITUTE OF FAMILY STUDIES. Growing Up in Australia: the Longitudinal Study of Australian Children. Melbourne: AIFS. Achados sobre comportamento pró-social, voluntariado e saúde mental na adolescência.
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BRINGLE, R. G.; HATCHER, J. A. Implementing service learning in higher education. The Journal of Higher Education, v. 67, n. 2, p. 221-239, 1996.
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COSTA, Antonio Carlos Gomes da; VIEIRA, Maria Adenil. Protagonismo juvenil: adolescência, educação e participação democrática. São Paulo: FTD, 2006.
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FREIRE, P.
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