A IMPORTÂNCIA DO VOLUNTARIADO NO PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM E DA FORMAÇÃO CIDADÃ DOS ESTUDANTES

Prof. José Ricardo Mole • 26 de agosto de 2026

O que a pesquisa educacional já sabe sobre servir, aprender e se formar cidadão e por que a diferença entre uma boa ação e uma boa aula cabe em uma única variável.

1. Introdução


Toda escola brasileira tem, em algum ponto do calendário, uma ação solidária. A campanha do agasalho, a arrecadação de alimentos, a visita ao asilo, o mutirão de limpeza da praça. São gestos legítimos, bem-intencionados e quase sempre bem recebidos pelas famílias. A pergunta que raramente se faz é outra e é mais desconfortável: aquilo formou alguém?


A resposta não depende do tamanho da doação. Depende do desenho pedagógico. Aqui a literatura acadêmica é surpreendentemente convergente.


2. O que a evidência mostra


A síntese mais citada sobre o tema é a meta-análise de Celio, Durlak e Dymnicki (2011), que reuniu 62 estudos e 11.837 estudantes da educação básica ao ensino superior. Comparados a grupos de controle, os alunos que participaram de projetos de aprendizagem-serviço apresentaram ganhos estatisticamente significativos em cinco domínios: atitude em relação a si mesmos, atitude em relação à escola e à aprendizagem, engajamento cívico, habilidades sociais e desempenho acadêmico. Os efeitos médios variaram de 0,27 a 0,43, magnitudes modestas isoladamente, mas relevantes para uma intervenção que atua simultaneamente sobre dimensões cognitivas, socioemocionais e cívicas.


Resultados na mesma direção aparecem em Conway, Amel e Gerwien (2009), com 78 estudos, e em Yorio e Ye (2012), com 40 estudos, este último com efeitos consistentes sobre a compreensão de questões sociais, o autoconhecimento e o desenvolvimento cognitivo. Warren (2012), analisando 11 estudos, encontrou aumento de aprendizagem independentemente da forma como ela foi medida. Billig (2000), revisando especificamente a produção sobre a educação básica, já apontava ganhos em rendimento, frequência e vínculo com a escola.


Há também indícios de efeito sobre o bem-estar. Achados do estudo longitudinal australiano Growing Up in Australia, divulgados pelo Australian Institute of Family Studies, associam comportamentos pró-sociais e participação voluntária na pré-adolescência a menor probabilidade de sofrimento psíquico ao longo do desenvolvimento. Cuidar de alguém, ao que tudo indica, também cuida de quem cuida.


3. A variável que decide o resultado


O achado mais útil para a prática escolar, porém, não é o efeito médio. É o moderador.


Van Goethem e colaboradores (2014) analisaram 49 estudos com 24.477 adolescentes entre 12 e 20 anos, publicados na Child Development. O serviço comunitário produziu efeitos positivos em resultados acadêmicos, pessoais, sociais e cívicos. Porém, quando os pesquisadores separaram os programas que incluíam reflexão estruturada daqueles que não incluíam, o quadro mudou de forma dramática: o efeito médio foi de 0,41 nos programas com reflexão e de 0,05 naqueles sem reflexão.

Sem reflexão sistemática, a ação solidária produz um efeito estatisticamente indistinguível de zero. A doação continua chegando ao seu destino. O aprendizado, não.


Celio, Durlak e Dymnicki (2011) chegaram a conclusão convergente ao testar quais práticas se associavam a melhores resultados: vínculo com o currículo, voz do estudante no planejamento, envolvimento real da comunidade e reflexão. Não são detalhes de execução. São a diferença entre um evento e uma experiência formativa.


4. Por que funciona: as bases teóricas


A explicação não é nova. Dewey (1938) já sustentava que nem toda experiência é educativa: só o é aquela submetida aos princípios de continuidade e interação, ou seja, aquela que se conecta a experiências anteriores e é reelaborada intelectualmente. Experiência sem elaboração, para Dewey, pode inclusive ser deseducativa, pode consolidar estereótipos e preconceitos em vez de dissolvê-los.


Kolb (1984) sistematizou esse movimento no ciclo de aprendizagem experiencial: experiência concreta, observação reflexiva, conceituação abstrata e experimentação ativa. Uma ação solidária que se encerra na entrega da doação interrompe o ciclo no primeiro estágio. É por isso que ela não gera aprendizagem transferível.


Freire (1996) acrescenta a dimensão política e ética. Para ele, ensinar exige a curiosidade epistemológica, a passagem do saber ingênuo ao saber crítico, e o reconhecimento de que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. Quando um estudante entende por que aquela família precisa da cesta básica, ele deixa de ser doador e passa a ser sujeito que pensa a realidade. Freire (1970) também nos protege de um risco central: a falsa generosidade, aquela que alivia a consciência de quem doa sem tocar as estruturas que produzem a necessidade.


Youniss e Yates (1997), em estudo clássico sobre adolescentes engajados em serviço comunitário, mostraram que a participação sustentada e acompanhada de discussão coletiva contribui para a construção de identidade e de responsabilidade social, o jovem passa a se enxergar como alguém que age no mundo. Tapia (2006) sintetiza esse mecanismo como um círculo virtuoso: quanto mais conhecimento é depositado na ação solidária, mais relevante ela se torna; quanto mais relevante a ação, mais motivadora ela é e mais perguntas novas produz, realimentando o desejo de aprender.


5. O que dizem os autores brasileiros


A discussão não é importada. Ela tem tradução consolidada na produção nacional e é ela que dá contorno próprio ao tema no nosso contexto.


Costa e Vieira (2006) formularam o conceito de protagonismo juvenil, hoje incorporado ao vocabulário corrente das escolas brasileiras. A tese central é a de que o adolescente deve ser visto como parte da solução e não como problema a ser administrado. Os autores propõem que a relação entre educador e educando percorra três estágios sucessivos, dependência, colaboração e autonomia, de modo que a iniciativa das ações migre progressivamente do adulto para o jovem. Esse é um critério de avaliação muito prático: em que estágio está o programa de voluntariado da minha escola?


Arroyo (2000) ajuda a entender por que tantos projetos solidários se desgastam. Para ele, o ofício de mestre se constrói na relação com sujeitos concretos, e não no cumprimento de tarefas prescritas. Quando a ação solidária vira mais uma exigência administrativa, ela perde exatamente a dimensão relacional que a tornaria formativa.


La Taille (2006) oferece a distinção que sustenta a discussão ética do tema, ao separar a moral, que responde à pergunta sobre o dever, da ética, que responde à pergunta sobre a vida que vale a pena ser vivida. Projetos solidários que se limitam ao registro do dever tendem a produzir obediência; os que tocam a segunda pergunta produzem adesão. É uma diferença que aparece no engajamento dos alunos já nas primeiras semanas.


Araújo (2003) trabalha a estratégia de projetos como caminho para tratar temas transversais de forma articulada ao currículo e não paralela a ele. É precisamente a arquitetura de que a aprendizagem-serviço precisa: um problema real como eixo e conteúdos disciplinares mobilizados para enfrentá-lo.


Sposito (2008), examinando as interações entre educação escolar e educação não formal no Brasil, alerta para um ponto que interessa diretamente às escolas privadas: essas experiências não escolares só produzem efeito educativo consistente quando articuladas à escola e não quando funcionam como circuito paralelo destinado a compensar o que o currículo não faz. Gadotti (1992), ao formular a ideia de escola cidadã, havia proposto algo convergente: a cidadania não é conteúdo a ser transmitido, é prática a ser exercida dentro da própria instituição.


No campo específico da aprendizagem-serviço, a produção brasileira ainda é jovem, mas já existe. Macuch e Ortiz (2022) analisaram relatórios de estudantes envolvidos em projetos de vinculação social e identificaram três eixos de transformação percebida: o eu profissional, o eu pessoa e o reconhecimento do outro. A pesquisa reforça, com dados qualitativos brasileiros, aquilo que as meta-análises indicam quantitativamente, o efeito não é apenas cognitivo, é identitário. A sistematização do CENPEC Educação (2021), no âmbito da Rede Brasileira de Aprendizagem Solidária, é hoje a porta de entrada mais acessível para escolas que queiram começar.


6. O encontro com a BNCC


A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) define competência como a mobilização de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho (BRASIL, 2018). A definição é operacional e exigente: sem uma demanda complexa e real, não há como verificar se a competência foi mobilizada.

Ao menos quatro das dez competências gerais encontram no voluntariado estruturado um contexto de aplicação quase perfeito:


Competência 6, que trata da valorização da diversidade de saberes e vivências culturais e das escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao projeto de vida.


Competência 7, que exige argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si, dos outros e do planeta.


Competência 9, que trata de exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, com acolhimento e valorização da diversidade.


Competência 10, que trata de agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários.


Note que as competências 9 e 10 são, entre as dez, as menos avaliáveis por instrumentos convencionais. Não se mede empatia em prova objetiva. Mede-se em situação. O voluntariado com intencionalidade pedagógica oferece exatamente a situação que falta e, com ela, evidências observáveis de desempenho.


No Ensino Médio, a conexão é ainda mais direta: o projeto de vida, previsto na BNCC como eixo estruturante, se beneficia de experiências que colocam o estudante diante de problemas reais e de adultos que trabalham com eles. Boa parte das descobertas vocacionais que os estudantes relatam nasce desse tipo de contato, não de testes de perfil.


7. O que o estudante efetivamente leva


Em projetos bem desenhados, o ganho aparece em quatro camadas simultâneas.


Acadêmica: conteúdos curriculares aplicados a um problema autêntico, com maior retenção e transferência.


Socioemocional: cooperação, comunicação, tolerância à frustração, responsabilidade sobre um compromisso assumido diante de terceiros.


Cívica: compreensão de que problemas sociais têm causas estruturais e que a ação coletiva organizada produz efeito, o que reduz tanto o cinismo quanto o voluntarismo ingênuo.


Identitária: a experiência de ser alguém de quem outra pessoa dependeu, e de ter correspondido. Youniss e Yates (1997) mostram que é justamente esse componente que sustenta o engajamento cívico na vida adulta.


8. Três cuidados éticos que não podem ser negociados


Primeiro, o outro não é material didático. A comunidade parceira não existe para que os nossos alunos desenvolvam empatia. A relação precisa ser de reciprocidade, com benefício verificável para quem recebe o serviço, princípio que Bringle e Hatcher (1996) colocam no centro da definição de aprendizagem-serviço e que Tapia (2015) chama de solidariedade horizontal.


Segundo, o registro fotográfico não é avaliação. Comunicar a ação é legítimo, inclusive para atrair novos parceiros, mas quando a foto ocupa o lugar da reflexão, o projeto perde justamente a variável que a pesquisa identificou como decisiva. Vale aqui a distinção de La Taille (2006): estamos formando para o dever aparente ou para uma concepção de vida boa?


Terceiro, ação pontual não sustenta transformação. Os padrões de qualidade formulados por Billig e Weah (2008) incluem duração e intensidade suficientes: experiências curtas podem inspirar, mas não constroem vínculo, expertise nem impacto verificável.


9. Uma conclusão simples


O voluntariado escolar não educa por ser bonito. Educa quando é planejado como currículo: com objetivo de aprendizagem declarado, protagonismo real do estudante, parceria de mão dupla, reflexão sistemática e avaliação dos dois lados da relação.


A boa notícia é que a escola brasileira já faz a parte mais difícil, que é mobilizar. Falta, na maioria dos casos, apenas transformar mobilização em pedagogia. E isso, ao contrário do que parece, custa menos tempo do que se imagina, mas exige intenção.


Referências


ARAÚJO, Ulisses F. Temas transversais e a estratégia de projetos. São Paulo: Moderna, 2003.


ARROYO, Miguel G. Ofício de mestre: imagens e autoimagens. Petrópolis: Vozes, 2000.


AUSTRALIAN INSTITUTE OF FAMILY STUDIES. Growing Up in Australia: the Longitudinal Study of Australian Children. Melbourne: AIFS. Achados sobre comportamento pró-social, voluntariado e saúde mental na adolescência.


BILLIG, S. H. Research on K-12 school-based service-learning: the evidence builds. Phi Delta Kappan, v. 81, n. 9, p. 658-664, 2000.


BILLIG, S. H.; WEAH, W. K-12 service-learning standards for quality practice. In: NATIONAL YOUTH LEADERSHIP COUNCIL. Growing to Greatness 2008. Saint Paul: NYLC, 2008.


BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.


BRINGLE, R. G.; HATCHER, J. A. Implementing service learning in higher education. The Journal of Higher Education, v. 67, n. 2, p. 221-239, 1996.


CELIO, C. I.; DURLAK, J.; DYMNICKI, A. A meta-analysis of the impact of service-learning on students. Journal of Experiential Education, v. 34, n. 2, p. 164-181, 2011.


CENPEC EDUCAÇÃO. Aprendizagem solidária e a educação além dos muros da escola. São Paulo: CENPEC / Rede Brasileira de Aprendizagem Solidária, 2021.


CONWAY, J. M.; AMEL, E. L.; GERWIEN, D. P. Teaching and learning in the social context: a meta-analysis of service learning's effects on academic, personal, social, and citizenship outcomes. Teaching of Psychology, v. 36, n. 4, p. 233-245, 2009.


COSTA, Antonio Carlos Gomes da; VIEIRA, Maria Adenil. Protagonismo juvenil: adolescência, educação e participação democrática. São Paulo: FTD, 2006.


DEWEY, J. Experience and education. New York: Macmillan, 1938.


FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.

Por José Ricardo Mole 19 de agosto de 2026
1. Redefinindo o conceito de disciplina: da coerção à autonomia
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Introdução Quando Aristóteles escreveu a "Ética a Nicômaco" e a "Política", no século IV a.C., estabeleceu uma tese que atravessou os séculos: a política não é uma atividade separada da moral, mas a sua continuação natural. Para o filósofo, o ser humano é um animal político ( zoon politikon ) e a cidade existe não apenas para garantir a sobrevivência, mas para tornar possível a vida boa. O fim último da comunidade política é a eudaimonia , a felicidade entendida como florescimento coletivo, alcançada quando os cidadãos e seus governantes agem conforme a virtude. O caso do Banco Master, que eclodiu no Brasil no final de 2025 com a liquidação da instituição pelo Banco Central e a prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, oferece um retrato incômodo do quanto a política brasileira se distanciou desse ideal. As investigações da Polícia Federal, ainda em curso, revelaram uma rede de relações que atravessa todo o espectro político. Foram citados, direta ou indiretamente, parlamentares do centrão, da direita, lideranças ligadas ao governo e ao Partido dos Trabalhadores, governadores, prefeitos e até ministros do Supremo Tribunal Federal, como Dias Toffoli, que deixou a relatoria do caso após a revelação de vínculos empresariais de familiares com um fundo ligado ao banco, e Alexandre de Moraes, cuja esposa mantinha contrato milionário com a instituição. É preciso registrar, desde já, que se trata de suspeitas sob investigação e que a todos assiste a presunção de inocência, mas, como dizia o dramaturgo romano Plauto, na sua obra Curculio, ainda no século II a.C., “ flamma fumo est proxima ”, isto é, “a chama está sempre próxima da fumaça”. Ainda assim, o quadro geral permite uma reflexão filosófica legítima: o que Aristóteles diria sobre uma república em que o dinheiro parece circular com mais liberdade entre os poderes do que a virtude? O diagnóstico aristotélico: quando o poder serve ao interesse privado Na Política, Aristóteles classifica os regimes segundo um critério simples e poderoso: um governo é reto quando governa em vista do bem comum e é desviado (ou corrompido) quando governa em vista do interesse particular de quem detém o poder. A monarquia degenera em tirania, a aristocracia em oligarquia e a politeia, o governo constitucional dos muitos, degenera em demagogia. O nome do regime importa menos do que a sua finalidade: o que define a corrupção política, para Aristóteles, não é a forma institucional, mas o desvio do fim. Sob essa lente, o caso Banco Master é revelador precisamente porque não pertence a nenhum campo ideológico. A disputa de narrativas que se instalou, com a esquerda tentando atribuir o escândalo à direita e à gestão anterior do Banco Central, e a direita usando o envolvimento de ministros do Supremo para desacreditar o tribunal, é ela mesma um sintoma do problema. Ambos os lados tratam a corrupção como arma retórica contra o adversário e não como doença comum do corpo político. Aristóteles chamaria isso de facção ( stasis ): a situação em que os grupos deixam de deliberar sobre o bem da cidade e passam a lutar apenas pela vitória do próprio partido. Numa cidade tomada pela facção, a verdade se torna instrumento e a justiça, moeda de troca. Há ainda um agravante que o filósofo consideraria especialmente grave: o envolvimento, ao menos por proximidade e relações de interesse, de membros do Poder Judiciário. Na Ética a Nicômaco, Aristóteles descreve o juiz como "a justiça viva", aquele a quem as partes recorrem justamente porque o intermediário deve ser o meio-termo, equidistante dos interesses em conflito. Quando o julgador frequenta o círculo social do julgado, quando existem contratos e negócios ligando famílias de magistrados a investigados, compromete-se não necessariamente a honestidade individual de cada um, mas algo igualmente vital: a confiança pública na imparcialidade. Sem essa confiança, ensina Aristóteles, a amizade cívica ( philia politike ), o vínculo de reciprocidade que mantém a cidade unida, se dissolve. A raiz do problema: pleonexia e a crise da virtude Aristóteles daria um nome preciso ao motor do escândalo: pleonexia , o desejo de ter sempre mais do que é devido. Para ele, esse é o vício oposto à justiça, pois o injusto é exatamente aquele que toma para si mais bens e menos encargos do que lhe cabem na partilha comum. Um sistema financeiro que capta recursos de fundos de pensão de servidores municipais, como ocorreu com prefeituras que aplicaram dezenas de milhões no Master, e um sistema político que oferece proteção e acesso em troca de vantagens, formam juntos um circuito de pleonexia institucionalizada: o dinheiro público, que deveria servir ao bem comum, é convertido em patrimônio de poucos. O filósofo também nos lembraria de que a crematística, a arte de acumular riqueza pela riqueza, é para ele uma atividade contrária à natureza quando desligada de qualquer finalidade ética. A riqueza é instrumento da vida boa, nunca o seu fim. Uma sociedade em que banqueiros, políticos e juízes se encontram em jantares e fóruns patrocinados, unidos não por um projeto de cidade, mas por interesses patrimoniais cruzados, inverteu a hierarquia aristotélica dos fins: colocou os meios (o dinheiro, o poder) no lugar do fim (a eudaimonia coletiva). A proposta: reconstruir a política a partir da ética Se a política é a extensão da ética, a solução para a crise não pode ser apenas técnica ou punitiva; precisa ser, antes de tudo, uma reconstrução moral das instituições. A partir de Aristóteles, é possível propor quatro caminhos complementares. O primeiro é restaurar o primado do bem comum como critério de julgamento público . Aristóteles exigiria que cada ato de governo, cada decisão judicial e cada voto parlamentar fossem avaliados por uma única pergunta: isto serve à cidade ou serve a quem decide? Na prática brasileira, isso significa levar as investigações do caso Master até o fim, sem blindagens corporativas de nenhum poder e sem seletividade partidária. Uma eventual comissão parlamentar de inquérito, hoje travada por cálculos eleitorais, só teria valor aristotélico se investigasse todos os envolvidos, de todos os campos, pois a justiça que poupa os aliados não é justiça, é facção. O segundo caminho é a exigência de virtude nos governantes e não apenas de legalidade. Para Aristóteles, a lei é indispensável, mas insuficiente: o bom regime depende do caráter ( ethos ) de quem o conduz, formado pelo hábito e pela educação. Daí a importância de mecanismos que tornem a virtude condição de acesso ao poder: regras rígidas de conflito de interesses, quarentenas efetivas entre função pública e negócios privados, impedimentos automáticos de magistrados com vínculos pessoais ou familiares com as partes e transparência integral das agendas de autoridades. Não se trata de esperar santos, mas de desenhar instituições que dificultem o vício e favoreçam o hábito da honestidade, pois, como diz a Ética a Nicômaco, nos tornamos justos praticando atos justos. O terceiro caminho é o fortalecimento da classe média como base do regime. Aristóteles sustentava que a cidade mais estável é aquela governada pelos cidadãos medianos, nem tão ricos que desprezem a lei, nem tão pobres que possam ser comprados. Um sistema político capturado por grandes fortunas, em que o financiamento da vida pública depende da proximidade com o poder econômico, tende inevitavelmente à oligarquia. Reduzir o peso do dinheiro na política, proteger os fundos públicos de aplicações temerárias e ampliar a participação cidadã na fiscalização são medidas que aproximam o Brasil da politeia, o regime misto e equilibrado que o filósofo considerava o mais viável para os homens reais. O quarto caminho, talvez o mais profundo, é a educação para a cidadania. Aristóteles encerra a "Ética a Nicômaco" anunciando a Política justamente porque a formação do bom cidadão é tarefa da comunidade, não apenas da família. Enquanto a sociedade brasileira tratar a corrupção como esperteza tolerável quando praticada pelo próprio lado e como crime imperdoável apenas quando praticada pelo adversário, nenhuma reforma institucional será suficiente. A cura da facção começa quando os cidadãos voltam a se reconhecer como partícipes de um destino comum. Educar para a ética e para o interesse público: da polarização à concórdia Os quatro caminhos apontados no capítulo anterior convergem, no fundo, para um único fundamento, que merece reflexão própria: nenhuma reforma institucional sobrevive num povo que não foi educado para desejá-la. Aristóteles é categórico nesse ponto. No livro final da Ética a Nicômaco, ele reconhece que os argumentos, por si sós, não bastam para tornar os homens bons; é preciso que o caráter seja cultivado desde cedo pelo hábito e que a cidade assuma essa formação como sua tarefa mais importante. Por isso, na Política, ele afirma que o legislador deve se ocupar, acima de tudo, da educação dos jovens, pois cada regime se conserva ou se corrompe conforme o caráter dos cidadãos que forma. Uma democracia produz democratas ou demagogos; a diferença está na educação. Aplicada ao Brasil do caso Banco Master, essa lição ilumina algo que os capítulos anteriores já sugeriam: a corrupção revelada pelas investigações não nasceu nos gabinetes, nas cortes ou nos bancos; nasceu antes, numa cultura política que educa para a facção e não para a cidade. A polarização brasileira funciona hoje como uma verdadeira pedagogia às avessas. Ela ensina o cidadão a julgar os atos pela camisa de quem os pratica e não pela sua conformidade com a justiça; ensina a celebrar a investigação quando atinge o adversário e a denunciá-la como perseguição quando atinge o aliado; ensina, enfim, que a verdade é negociável e que a lealdade ao grupo vale mais do que a lealdade ao bem comum. Foi exatamente esse hábito coletivo que se manifestou na disputa de narrativas em torno do escândalo, descrita no diagnóstico deste ensaio: cada campo tentando transformar a pleonexia comum em crime exclusivo do outro. Aristóteles tem um nome para o antídoto: homonoia, a concórdia. Ele adverte, com precisão que parece escrita para o nosso tempo, que a concórdia não é a mera coincidência de opiniões e muito menos a uniformidade de pensamento. Concórdia é o acordo dos cidadãos sobre as coisas que importam à vida comum: sobre o que é justo, sobre quais regras valem para todos e sobre o fim que a cidade persegue. Homens virtuosos, diz ele, estão em concórdia mesmo quando divergem, porque querem o que é justo e vantajoso para todos; os homens maus são incapazes de concórdia, porque cada um quer para si mais do que a sua parte, e disso nascem a desconfiança e a facção. A unidade ética de que o Brasil precisa não é, portanto, o fim do pluralismo, que Aristóteles, aliás, defendia contra o excesso de unidade proposto por Platão. Direita e esquerda podem e devem continuar divergindo sobre economia, costumes e o tamanho do Estado; o que não podem é divergir sobre o inegociável: que o dinheiro público pertence ao público, que a lei obriga igualmente aliados e adversários e que juiz não frequenta a mesa de quem está julgando, nem com ele faz negócios. Como se educa para essa concórdia? O filósofo responderia em três planos. No plano escolar, formando desde a infância o hábito da vida em comum: a educação para a ética não é uma disciplina que se decora, mas uma prática que se exercita, e a escola é a primeira cidade em que a criança aprende, ou deixa de aprender, que as regras valem para todos, que o bem da turma precede o interesse do indivíduo e que divergir não é destruir. No plano público, pelo exemplo dos governantes: Aristóteles sabia que o ethos se transmite por imitação, e um povo que assiste, impune, ao trânsito de banqueiros entre gabinetes e tribunais aprende que a virtude é ingenuidade. Cada punição justa no caso Master, aplicada sem seletividade partidária, será uma aula pública de ética; cada blindagem corporativa será uma aula de cinismo e, no plano cívico cotidiano, pela reconstrução da amizade política: espaços de deliberação local, conselhos, audiências e imprensa livre em que os cidadãos voltem a se encontrar como vizinhos que dividem um destino e não como torcidas que dividem um campo de batalha numa rivalidade cega e, muitas vezes, assassina. Esse é o elo que costura todos os capítulos deste ensaio. O diagnóstico mostrou uma cidade tomada pela facção; a análise da pleonexia revelou o vício que a alimenta; as propostas institucionais desenharam o remédio jurídico e político. As instituições são, na imagem aristotélica, como leis escritas na pedra: necessárias, porém mortas se não estiverem também escritas no caráter dos cidadãos. A educação para a ética e para o interesse público é o que transforma a norma em hábito e o hábito em virtude. Sem ela, cada geração precisará redescobrir, a um custo enorme, que a política corrompida empobrece a todos; com ela, a concórdia deixa de ser um armistício frágil entre facções e se torna aquilo que Aristóteles chamava de amizade cívica em ato: o acordo profundo, renovado a cada geração, de que a cidade existe para o bem de todos e de que a felicidade de cada um só floresce na felicidade comum. Considerações finais O caso Banco Master não é, aristotelicamente falando, um escândalo de direita, nem de centro, nem de esquerda: é o retrato de uma comunidade política que perdeu de vista o seu fim. Quando o poder deixa de servir à eudaimonia coletiva e passa a servir à pleonexia de quem o exerce, o regime, seja qual for o seu nome constitucional, já degenerou. A lição de Aristóteles, contudo, não é pessimista. Se a política é a extensão da ética, então a sua corrupção nunca é destino, mas escolha, e escolhas podem ser refeitas. Recolocar o bem comum acima dos interesses da facção, exigir virtude de quem governa e julga, equilibrar o peso do poder econômico e educar cidadãos capazes de amizade cívica: eis o programa, antigo e sempre atual, para que o Brasil transforme a sua crise em oportunidade de reencontrar aquilo que Aristóteles chamava, simplesmente, de vida boa. Referências ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco . 4. ed. São Paulo: Edipro, 2018. ARISTÓTELES. Política . São Paulo: Edipro, 2019.